segunda-feira, 13 de abril de 2009

62ª Conversa - o meu irmão e eu

A Rute diz que não consegue perceber qual a minha relação com o meu irmão, porque quase não falo nele. O meu irmão tem 33 anos e sempre foi o oposto de mim, ainda hoje. Não estudou, eu tirei mestrado; sempre foi inresponsável, eu tinha que ser um poço de responsabilidade; ele fazia os disparates, eu tinha que andar na linha; ele é o extrovertido, eu a seriedade; ele é o protegido dos meus pais, eu tive que descobrir a independencia desde cedo.

Sempre tive ciúmes do meu irmão. O feitio extrovertido e a forte ligação com os meus pais levava-o para o palco principal e a mim restava apenas o lugar de figurante numa familia de 4. Ainda hoje tenho ciúmes, mas verdade é que não trocava a minha vida por a dele.

A minha relação com o meu irmão sempre foi um pouco estranha. Por termos 7 anos de diferença, ele sempre quis desempenhar a função de paizinho, mas nunca o permiti. Eu era confidente dele, mas ele não era o meu (por ser paizinho). Quantas vezes dei-lhe conselhos? Quantas vezes ainda fui eu que tive de ajudá-lo? Quantas vezes é que me telefonou para eu o desenrascar? Mas também tinhamos o outro lado: todas aquelas vezes que deixámos de falar por tempo indeterminado. Tivemos já várias discussões, desentendimentos que nos afastaram por várias semanas ou até meses... Mas depois também tinhamos brincadeiras tipicas de putos: discussões à chapada e ao pontapé, cocegas que acabavam em choro (da minha parte, claro), entre outras, em que tinhamos os nossos pais a tentar fazer-nos parar antes que ele me magoasse. Muitas foram as vezes que terminei com nódoas negras, mas com uma satisfação porque tudo aquilo era também amor. Se amo o meu irmão? Ninguém tenha dúvidas disso.

Há 5 anos ele teve um filho, a coisa mais perfeita que ele alguma vez fará. Uma criança que eu amei desde o primeiro segundo, mas que 1 ano e meio depois, foi para milhares de kms de distância. Sofri muito, pela ausência da criança, pela ausência do meu irmão, pela perda de tudo aquilo que tinhamos. Para me tentar proteger, tentei afastar-me deles, afinal coração que não vê, coração que não sente, não é?

Passou-se quase dois anos e o meu irmão voltou, mas o meu sobrinho não. Custou-me muito, continua a custar-me muito ter o meu sobrinho longe, custa-me muito vê-lo crescer sem o ter por perto, custa-me muito ouvi-lo a falar cada vez mais o inglês e menos o Português, custa-me muito não poder estar perto para quando precisa...

Na quinta-feira passada eu e o meu irmão tivemos uma discussão por causa de umas fotografias do 5º aniversário do meu sobrinho, que teve para mim consequências maiores. Agora foi o meu irmão que me afastou do meu sobrinho. "Existem coisas que são só minhas e dela e mais nada" - referiu. Nem consegui responder, as lágrimas invadiam-me o coração e a cara. Nesse dia nem conseguia falar... Remeti-me ao silêncio, assim como me remeterei perante o meu irmão.

1 comentário:

Cris (Mahinder Kaur) disse...

ó, Cátia... fico triste. Tem força! Um xi!